terça-feira, 20 de abril de 2010

Devaneios numa manhã chuvosa

Não são raros os emails que recebo, assim como outros que trabalham voluntariamente com animais, pedindo informação sobre onde "deixar seus animais", digo, definitivamente mesmo. Pessoas livram-se dos animais, que outrora adquiriram, comprando ou adotando (ou reproduzindo-se por anos na família), assim como uma peça velha de roupa. Descarte, sem nenhuma culpa. Pessoas me perguntam isso com um aparente ar inocente, como se eu pudesse lhes dar uma solução mágica e com tranquilidade em responder, sabe, como coisa normal da vida, corriqueira. Mas é o tipo de coisa que me faz acordar mais cedo do que deveria, porque um pensamento acaba martelando minha cabeça, sem respeitar meu descanso: como ensinar compaixão?

Tais pessoas aparentam a face da mais pura inocência, alegando motivos que pelo que falam, deveriam ser aceitos e compreendidos tranquilamente por qualquer um. Vou me mudar. Vou ter um filho. Tenho alergia. Não tenho tempo de cuidar. Para mim, nenhuma alternativa é amigável. Talvez a mais aceitável seria: não tenho condições financeiras e meu bichinho está sofrendo por isso, pois não consigo lhe dar o que necessita, nem em termos de saúde nem em alimentação. Ok, e neste caso, a pessoa que realmente ama o animal deve procurar doar o animal para uma nova família, de confiança. Porque abrigo, público, que recebe animais, isso praticamente não existe. Abrigos particulares e mensalistas já estão abarrotados de animais. Quando até bem cuidados, pecam no quesito emocional, pois é impossível dedicar atenção e carinho a cada um dos renegados. Muitos, antes saudáveis, acabam por adoecer pela falta da família que os largou lá, a mesma família que curte uma praia no verão sem sequer lembrar daquela vida do passado. Sabemos de animais assim largados por anos em abrigos. Mesmo que o antigo "dono" ainda pague por sua sobrevivência no local, o animal fica lá, prostrado, depressivo, sem nada entender de sua triste vida sem aparente sentido.

Claro, é a opção de muitos protetores (pessoas comuns como todas as outras e que não recebem centavo por ter compaixão), que acolheram em resgate animais em situação muito precária e, com suas casas já lotadas, procuram um local para que estes vivam adequadamente, sem deixar de continuar na busca de lares definitivos. Está lá, mas provisoriamente.

Penso que se existissem abrigos para pessoas de qualquer tipo (chegar e largar), a maioria iria fazer uso deste serviço. Imagina que beleza largar aquela vizinha do bairro, aquela suja e maltrapilha, que tem mais de 11 filhos. Que beleza, livrar-se do meu problema, tirar do meu campo de visão. Largar essa gente velha que dá trabalheira e não serve mais prá nada, babando e ocupando espaço na casa, que eu posso logo colocar à venda. Genial! E esses doentes, que dão uma despesa do cão, com o perdão do trocadilho, gastando meus pilas quando eu poderia estar curtindo a noite com os amigos e comprando aqueles ítens de desejo que listei no meu orkut, twiter e facebook?

Outro dia uma perspicaz amiga me contou um episódio vivenciado. Em uma loja de artigos pet estava ela a comprar alguns ítens para seus felinos. Uma menina, no auge dos seus 8 anos, que acompanhava os pais, lhe perguntou se ela tinha gatos. "Ah sim, tenho alguns" - disse minha amiga, referindo-se a seus filhinhos do coração. A menina prontamente veio com essa: "Pois eu só gosto de gatos bebezinhos, filhotinhos. Depois que crescem, não gosto mais" - com cara de nojo. Sem nem piscar minha amiga devolveu, a contragosto dos adultos dito "normais" que ali estavam e pais da criança: "Ah, mas eu também, só gosto de crianças bem bebezinhas, nenéns. Quando crescem, principalmente chegando na tua idade, não gosto mais. Mando jogar fora!". De novo a perguntinha: como ensinar compaixão?

Chego à conclusão de que o ser humano é naturalmente mau, nasce ruim. É tão disseminada essa característica que passou a ser normal, aceita, sem questionamentos. As pessoas perguntam sobre um local para descartar seus antigos amigos sem pestanejar, sem nem ter a consciência da maldade no ato. É um egoísmo, um hedonismo tão arraigado nas mentes, que não faz sentido para elas achar errado tal ação. E é essa ignorância de sua própria natureza do mal que vejo em pessoas comuns, nossos vizinhos, colegas, alunos, que me apavora. Ser mau, ter atitudes que vão desgraçar vidinhas, e não pensar em nenhum momento que se está sendo ruim, não sentir culpa e viver a vida na boa, transando, trabalhando, bebendo uma cerveja com os amigos, pagando as contas, sofrendo de amor e por aí, como se nada tivesse acontecido. A personificação do mal da atualidade é a aparente normalidade, e isso é terrível.

Para uma pessoa ser boa, é preciso muito treino, muito desvencilhar da coisa banal, desapego do material e um meio cultural que por vezes ajude. Porque ela nasce ruim, e se ninguém fazer nada, continuará assim. Já os animais, para tornarem se maus, precisam de treino, precisam ser violados, maltratados, passar fome, para serem "ensinados", por esta praga que é o ser humano, a atacar alguém ou outro de sua espécie. Pois eles sim, nascem naturalmente bons.

Consigo encerrar aqui com mais uma hipótese: somos os seres mais inferiores deste planeta.
E novamente me pergunto: como ensinar compaixão?

6 comentários:

Katarina Peixoto disse...

Todos os dias venho aqui, ultimamente para saber do Leozinho, que tem mobilizado minhas expectativas. Hoje tem esta beleza de desabafo, esta denúncia, ou descrição. Thiane, querida, há quem pense diferente, mas eu concordo com a tese platônica segundo a qual virtude não se ensina - tá lá no Fédon -, sequer há garantias de sua transmissão de pai para filho. Como nascemos pouco importa. O que fazemos, sim; e o que fazemos com o que fizeram de nós, sobretudo. Quem maltrata animais maltrata humanos. Daí que tens razão em perguntar de onde vem o mal nessas pessoas e mentes.Não acredito que o conhecimento determine a moral, mas há uma espécie de "deformidade" cultural na tese delirante - basicamente católica - de que os humanos são seres superiores. Não há qualquer base, fora da religião, que sustente esse devaneio especista. E não há portanto perdão algum para quem maltrata animais, porque, quando menos, não há quem faça isso sem maltratar humanos. Porque, no mais, maltratar é intransitivo, de tão absolutamente transitivo que é. O que importa é que os animais não guardam ressentimento - embora tantas vezes devessem guardá-lo. E que nós temos crescido no universo, minha caríssima. A cada dia a população guaipeca aumenta, nas coleiras bonitas, com os pais e mães mais cuidadosos. Passeando com o Chôri, que é nosso filhinho graças a ti - assim como as irmãs tsunami, graças aos Gatos da Redenção -, chego a ter dó dos cães de raça, que passeam tantas vezes com pessoas que por eles não têm qualquer afeto e eventualmente são funcionários domésticos das casas. Os pais e mães dos guaipecas são exemplo de amor, afeto. É por isso que uma vizinha, protetora que adotou há pouco uma filhotinha então condenada à eutanásia por causa de cinomose, disse, olhando o Chôri passear pelo bairro, como um reizinho: "é adotado, né?" "Sim - sorrindo bem muito". "Só pode ser. Os adotados andam nas ruas como os donos do mundo." Verdade. Porque o mundo do afeto é tudo, quando não há maldade, caso dos animais. Seguimos, minha amiga. Seguiremos cada vez com mais força.

Joseane disse...

Pois é Thiane, quanto mais conheço as pessoas, mais eu amo meus gatos.

Priscila Coelho - Adote, Não Compre! disse...

Profunda reflexão, Thiane. Agora essa pergunta vai ficar nos meus pensamentos também...

Belo texto, parabéns.

Beijos,

Priscila Coelho
Adote, Não Compre!

daniela disse...

tb gostei mto da tua reflexão, eu penso isso tb mas se fosse pra escrever n sei se conseguiria me esclarecer como vc.
adorei a atitude da tua amiga, qto aos gatos filhotes e a garotinha. o q acontece é q a pobre menina nao é má, apenas seus ignorantes pais nao souberam lhe ensinar que ela nao deve ter animaizinhos de estimação, q isso n é amor e q ela n merece ter um. e ela provavelmente vai continuar adotando filhotes e abandonando qdo adultos até q mergulhe um pouco no mundo dos protetores e aprenda a ter compaixao com os animais.
nosso trabalho é de formiguinha, mas cada um q convencemos sobre posse responsável ja é uma vitoria. sua amiga deu um belo exemplo, aposto q quem ouviu ficou refletindo sobre a questao.

adriana disse...

Parabens pelo texo e reflexão, é maravilhoso....
E mais maravilhoso ainda pode ser, se as pessoas que tem o pensamento do texo lessem essas palavras e se concientizassem do que são capazes de fazer, sem sentimentos pelos seres vivos.....
bj
Marcia, filha e peludos maravilhosos que temos....

Ah, a propósito, adotei uma gatinha de 09 anos e ela é maravilhosa assim como meus outros peludos adotados, quase todos adultos.....

Priscila Coelho - Adote, Não Compre! disse...

Thiane, fiquei pensando: acho que não é só compaixão que falta. Falta senso de responsabilidade.

Compaixão é pros animais dos outros, que não temos nada a ver com a história e vemos atirados por aí. Mas responsabilidade é ter a noção de que o animal depende de ti e que se o teu cachorro deu cria ou se o teu gato fica acasalando por aí, essas consequências são sim da tua competência.

Acho que se tivesse mais responsabilidade, teria menos sofrimento e por consequência, dependeríamos menos da compaixão das pessoas.

Viu, eu disse que eu ia ficar com isso na cabeça :)

Pri Coelho
Adote, Não Compre